O Mounjaro e Ozempic estão bugando o varejo
Por Sidnei Raulino, CEO da Seed Digital
Olho para o lado e a humanidade murchou. Entramos na era da “sociedade do clique”. Um clique na caneta, uma picada sutil na coxa, e pronto: a gula, esse pecado capital que moldou o capitalismo ocidental, foi cancelada por um hormônio sintético.
A quebra de patente do Ozempic e a chegada triunfal do Mounjaro não são apenas eventos médicos; são abalos sísmicos na nossa comédia humana. É o triunfo da química sobre a força de vontade. Mas, enquanto os analistas de plantão contam os bilhões da indústria farmacêutica, eu pergunto: quem está olhando para as vitrines?
A geopolítica do consumo mudou. E o varejo tradicional está prestes a viver o seu maior delírio — ou o seu pior pesadelo.
Do Açúcar ao alambique: o jejum forçado do consumo
Primeiro, veio o pânico nos corredores dos supermercados. O sujeito toma a picada milagrosa e, de repente, o chocolate tem gosto de areia, o refrigerante perde o gás existencial e a cerveja de sexta-feira vira um fardo intragável.
As gigantes dos ultraprocessados e as indústrias de bebidas alcoólicas assistem, de camarote e de mãos atadas, ao esvaziamento de seus volumes de venda. O desejo foi confiscado pelo laboratório. Mas o dinheiro que deixou de ir para o fast-food não vai ficar parado no banco. O desejo humano é imorredouro; ele apenas muda de endereço.
E esse dinheiro está correndo, de alguma forma, para o shopping e para as lojas de rua.
A vingança da grade: o retrofit do guarda-roupa
O corpo diminui, o ego infla e o guarda-roupa… morre. Há um exército de novos magros por aí vagando pelas ruas com calças caindo e paletós que parecem tendas de circo desabadas. A perda de peso por assinatura exige uma metamorfose estética imediata. É o retrofit total do indivíduo.
As pessoas não estão apenas comprando roupas novas; elas estão reconstruindo suas identidades visuais.
A era de ouro dos “brechós chic”: Os antigos e empoeirados brechós, que agora atendem pelo nome gourmetizado de second hand, viraram minas de ouro. O fluxo é duplo e lucrativo: as pessoas desovam as marcas de luxo que ficaram gigantes e compram o “novo” guarda-roupa da classe média alta que também encolheu. Margens de lucro nas alturas, demanda aquecida.
O caos da previsibilidade: Para os estilistas e diretores de compras do varejo de moda, o pesadelo começou. Como planejar uma coleção se a curva de grade virou de cabeça para baixo? Onde antes reinava o M, G e o GG, agora falta o P e o PP. Se a curva de tamanho inverter de verdade, qual será a velocidade do varejo para reagir? A moda sempre viveu de prever tendências, mas ninguém treinou os algoritmos para prever o milagre da magreza instantânea. Ah, as costureira e os alfaiates que podem fazer os ajustes personalizados, também estão em falta, “isso você já tinha percebido, não é?”;
A divisão da caneta: democracia estética ou abismo social?
Aqui reside a nossa eterna hipocrisia social. A quebra da patente democratiza o acesso, sim, mas até onde? Quem dita a velocidade dessa transição são os dígitos da conta bancária.
Veremos uma divisão de classes ainda mais perversa e visual: as classes que têm acesso à caneta, desfilando sua silhueta esguia e renovada nas marcas premium, e as classes sem “caneta”, lutando contra a inflação dos alimentos reais e presas às grades antigas do varejo de massa. Como o varejo popular vai se adaptar a essa esquizofrenia de formas e públicos?
O ilusionismo fitness: vida saudável ou o efeito sanfona químico?
As marcas de activewear e fitness estão salivando. Afinal, o novo magro quer usar top, quer usar lycra, quer fingir que aquela barriga chapada é fruto de cinco anos de crossfit e batata-doce, e não de uma substância refrigerada na porta do seu frigobar. As marcas esportivas vão surfar nessa onda de “estilo de vida”.
Mas sejamos provocativos: esse novo consumidor realmente abraçou o espinafre e a esteira? Ou estamos criando uma geração do eterno “bota caneta, tira caneta”?
No momento em que o bolso apertar ou o efeito colateral “caso exista” cobrar seu preço, o efeito sanfona voltará com a fúria de um tsunami. E o varejo, que ontem corria para fabricar o tamanho 36, terá que correr amanhã para reestocar o 46.
O varejo não está apenas diante de uma mudança de consumo. Está diante de um espelho que deforma a realidade a cada miligrama injetado. Preparem-se: podemos estar vivendo uma das maiores transformações do mercado, e não apenas a tecnológica, é biológica. E ela veste manequim 38. Por enquanto.